domingo, 23 de novembro de 2008

Memória do Felipe

Sábado, dia 22 de novembro. Na hora do jantar, comi lasanha (morram de inveja, meus queridos leitores), depois comi sobremesa, mousse de maracujá, uma delícia, apesar de o sabor de maracujá ser muito forte, mas está valendo. Depois disso, aproveitei meu tempo livre lendo o livro que minha tia começou a ler, o nome é Como atirar vacas no precipício, li do começo até a última página.

O livro me lembrou algumas coisas de que nunca havia me lembrado antes, era dentro do MAM, na minha terceira monitoria, inverno de 2005. A minha dupla é com Taís, para trabalhar com outras escolas.

A primeira escola a nos visitar foi a Derdic, chegou na hora certa. Eram alunos de 4ª série. Com poucos grupos e muitos monitores, o que fazer com os monitores sobrantes? A Carolina mandou eu e Taís formarmos outra dupla, ficamos quatro monitores com um grupo de cerca de seis alunos e uma professora. Conheço muito bem os alunos da Derdic, os monitores novatos não precisam se preocupar, e eu também não tenho motivo para me preocupar com nada.

Quando passamos pela exposição de Andy Warhol, os alunos se sentam e assistem alguns vídeos, então um certo aluno me perguntou se Andy inventou a super-heroína Mulher-Maravilha.

Respondi:

– Claro que não. Por quê?

– Porque essa mulher do vídeo combina com a mulher-maravilha.

– Não combina nada.

– Combina sim!

– Não! Esqueça isso, vamos ver outros vídeos aí.

Aquele aluno assistia muito a série da Liga da Justiça.

No meio do trabalho, ainda no salão da exposição de Andy Warhol, veio a Carolina de novo, tocou no meu ombro e disse:

– A outra escola já chegou, preciso de você e da Taís para a monitoria.

A Taís ficou com cara de lamentada ou triste, e eu também, mas não mostro minha cara feia para a Carolina.

Despedi-me dos alunos, quase ninguém se despedia, apenas aquele menino que achou que Andy era o inventor da Mulher-Maravilha, deu um aperto de mão e falei:

– Presta atenção com esses monitores!

Voltei à entrada com Taís, nossa, apareceram cerca de cinqüenta alunos, ou mais!

Quando todos os alunos da outra escola estavam dentro da entrada do museu, por quê? Lembro muito bem que o tempo era muito frio aquele dia, até havia levado o gigante casaco do meu pai.

Demorou muito pra dividir os grupos, esperei muito, devo ter passado cinco minutos perto da porta.

Eu estava perto da saída do museu, como disse, aproveitei para dar uma boa visão na bela paisagem de fora do museu. Aí, aconteceu uma coisa muito estranha, um mendigo carregando uma sacola estava fora do museu e me olhou (porque a parede do museu é toda de vidro, dá pra ver fora) e sinalizou para mim, olhei pra ele com muita paciência, claro.

Ele falou comigo em Libras perfeitamente!

Assustei-me e pensei “Como ele sabe falar em Libras?”

Ele diz:

– Tudo bem? Eu sou surdo.

Respondi sim com a cabeça, mexendo com um sorriso falso.

Ele desenrolou outro assunto:

-Eu já me formei na faculdade nos Estados Unidos, é Faculdade (não lembro qual a faculdade para surdos, é famosa) e agora sou professor da faculdade de lá.

Fiquei com os olhos abertos. Como podia ser um professor de faculdade nos EUA e mendigo aqui no Brasil?

Comecei pensando que ele era como no filme “A Vida de David Gale”, que tem o cara que era professor de faculdade no Texas e que acabou a vida pobre.

Fiquei dez segundos calado após afirmação dele, pensei muito, “é impossível acontecer essa história, acho que tudo é mentira, então”.

E eu ia perguntar “Se você é professor da faculdade, por que você se veste assim?”.

Pena que não perguntei, porque a Carolina me puxou pra colocar no grupo, dizendo:

– Rápido!

Dei um sinal para o mendigo de que precisava ir, ele deu um sorriso para mim.

Carolina o viu, e disse com sorriso:

– Ah, vocês estão conversando.

E voltei ao lugar de trabalho com a Taís, e depois de dez segundos estava pensando, pra virar a minha cabeça, para ver se tem tempo para perguntar para o Mendigo. Viro minha cabeça pra atrás, o Mendigo sumiu! E Carolina também não está mais naquele lugar.

Muito estranho. Mas foi a Taís quem me esqueceu durante toda essa história.

Ela ficou com muito medo, vive me perguntando como se faz e fala assim: “tô toda vermelhinha”.

Assim a ajudei, mas o grupo que íamos acompanhar era muito grande, devia ter vinte alunos, por aí, e a professora do grupo me disse que estava pronta. Outra coisa estranha.

A Carolina é quem me salvou, disse para a professora que precisa dividir esse grande grupo, e como professora de grupo não quer perder tempo mandou:

-Separar os grupos, meninos e meninas, AGORA!

Mais uma coisa estranha, fiquei pensando “qual é o problema com meninos e meninas aí?”

Deixo para lá, porque é melhor ficar com sete do que com mais de vinte, e Taís ainda tremendo diz:

– Não quero que nos separem!

Falei:

– Relaxe, a gente não vai se separar.

– Que bom, por isso preciso de você, Felipe.

Taís me abraçou, não sei nada sobre se isso é coisa de mulher ou sei lá.

E a minha dupla não se separou mesmo, outra dupla foi se juntar ao grupo dos meninos.

Começou a minha monitoria, o grupo das meninas é quem vai ver o nosso trabalho, a primeira visita é a sala do lado direto, onde tem as obras de Nelson Felix. Expliquei muito bem e minha companheira Taís explicou menos, é assim que sempre acontece na primeira monitoria.

É bem fácil pra mim, o motivo do artista é provar que existem as coisas que podem durar muito tempo com o mesmo formato, e que outras coisas podem mudar de forma com o tempo.

Como o exemplo: o ferro pode mudar a forma, sua cor prata, depois de algum tempo, fica com cor avermelhada, isso significa que está enferrujado.

E outro: A pedra nunca vai mudar, mesmo com muito tempo.

Todos os olhos do grupo estão olhando na minha cara, na minha mão (espero que não seja por ser bonito), toda a atenção, assim não preciso dizer aquele clássico “Preste atenção” ou “fim de papo”. Ainda bem, a professora tem toda razão em separar meninos e meninas.

A apresentação foi curta porque um segurança me mandou ficar menos tempo, porque estava cheio de pessoas, então fim de visita sobre Nelson Felix. Fui para o salão, que eu adoro visitar, é de Andy Warhol, sobre arte pop nos anos 70 e 80.

Contei sobre a vida dele. Como eu sei a vida dele? Na aula antes da monitoria, eu e os alunos do “Aprender pra ensinar” assistimos ao filme Basquiat - Traços de uma vida na Derdic. Dentro do filme, aparece o Andy, um filme interessante, queria assistir de novo, quem sabe um dia vamos assistir de novo :).

Taís abriu muito mais a mente dela, explicou muito mais, parabéns a ela.

O tempo da monitoria para os alunos foi muito curto, porque a escola chegou muito atrasada e precisa ir embora. É assim quando as escolas chegam atrasadas.

Bem, preciso despedir-me do grupo, antes disso perguntei para o grupo se haviam gostado ou não, recebi as respostas “Adorei”, como sempre.

É o fim do meu trabalho, ainda melhor do que ser monitor é o dia seguinte, quando começam as férias!


Felipe Lima

2 comentários:

Magna disse...

Olá,pessoal!
Sou a Magna, mãe do Felipe (a mesma que fez a lasanha). Passei por aqui só para dizer que vocês estão de parabéns. Estou adorando ler todas as postagens.
Beijos!

Daniella disse...

Oiee gente!

Hilário a memoria do Felipão (Felipão é meu melhor amigo).
Ele realmente melhorou muito com o lance de escrever!

Continue assim Felipão!

Beijinhos