segunda-feira, 28 de março de 2011

3ª preparação corporal

O primeiro momento deste encontro foi dedicado à apreciação de performances. A demanda da seleção de duas performances nos campos do teatro, da dança e/ou da arte visual surgiu no encontro do dia 17/03 e partiu de Mariana. A ideia foi a de alimentar, com novos conteúdos, as palavras/frases/imagens escolhidas por Felipe, Isadora, Leonardo e Luana já trabalhadas corporalmente nos encontros com a Juliana. Não tivemos tempo hábil para vermos as 12 performances escolhidas. As minhas (Regina) ainda não formam apresentadas. Tenho que admitir que o processo de escolha não foi fácil. Primeiro porque ao refletir sobre o desafio lançado para o grupo por Joana que, consistia na proposição de uma performance que deixasse uma marca na cidade, deparei-me com um problema conceitual.

Afinal, o que é performance e o que é intervenção urbana? Empenhei-me, então, a pesquisar tais definições. Desta forma, escolhi duas performances pertencentes ao campo da dança, dadas na cidade, incluindo um espectador não participante, que se propõe a traçar relações entre o corpo e objetos da vida cotidiana e a deixar marcas na cidade.

Garrafão Parque do Flamengo, grupo “Os Dois Companhia de Dança”:





Banqueata, grupo “Os Dois Companhia de Dança”:



Cibele apresentou como referência alguns trabalhos da artista Lygia Clark: "Arquiteturas Biológicas II", 1969; "Cabeça coletiva", 1975; "Relaxação", 1974-75.


















































Mariana apresentou o filme The Cost of Living do grupo inglês de dança-teatro DV8 e a performance Congelados, do grupo de teatro OPOVOEMPÉ:






Juliana nos mostrou o espetáculo de dança Sagração da Primavera, de Pina Bausch:




Joana apresentou alguns trechos do filme Rivers and Tides, do artista Andy Goldsworthy:




Amarilis apresentou ao grupo o trabalho "Atravessando a ponte", do coletivo As Rutes:


Aguardo de olhos fechados com a mão estendida.
É um momento tão expandido, uma espera que convoca, e é frágil ao mesmo tempo.
A mão como um campo aberto.
Ofereço e tomo.
Troco com algumas pessoas.
Seguram na ponta dos dedos, seguram prontos para soltar, seguram de leve.
O menino não.
Segurou num gesto habitual. Segurou firme. Sabia segurar.
Que intimidade têm as mãos.

As Rutes




















Depois das referências, voltamos ao trabalho corporal com a Juliana:


Dinâmica 1

Imaginar o corpo apoiado no espaço. Comando: Sustentar o espaço com o corpo dentro de uma bolha. Alterar: forma pesada e pequena, leve e pequena, solta e leve, leve e rápida.

Dinâmica 2

Deslocamento do corpo no espaço. Comando 1: O corpo de dois dos participantes deve ocupar a posição mais baixa em relação aos corpos dos restantes. Cada participante vai manipular a qualidade e o desenho de sua trajetória. Pausar de acordo com a necessidade. Acumular a ideia do espaço negativo ao apoiar o espaço. Congelar. Comando 2: Imaginar o corpo coletivo formando uma escultura em um espaço delimitado por contorno feito em giz. Dispor o corpo em círculo, linha ou aglomerado de pessoas de acordo com os três códigos estabelecidos por Juliana. Silenciar o corpo. Deixar a forma clara para ser lida pelo espectador. Sentir a informação que sugere a formação de uma determinada figura. Formar a figura. Dar um tempo para o espectador ler a figura.







Dinâmica 3
Ampliação do espaço físico de atuação. A mesma proposta da dinâmica 2 acrescentando a variável lugar: Marquise do Ibirapuera. Comando 1: Reparar a respiração. Pensar na bolha. Evocar as qualidades tempo e velocidade. Exercitar o campo de visão, deixar a informação chegar até cada participante, reagir a ela e aderir à proposta da figura. Fala de Mariana: “Eu sei o que eu vou fazer se eu olho para o outro.”




1º experiência em espaço público, "4 Performances de Rua" Corposinalizante + Juliana Monteiro + Mariana Senne


Texto: Regina P. P. Teixeira
Vídeos: Cibele Lucena

sexta-feira, 18 de março de 2011

2ª preparação corporal

Palavras/frases/imagens trazidas no encontro do dia 17/03 por Isadora (“Pode-se captar mais energia”), Felipe ("Há sempre um copo de mar para um homem navegar"), Luana (“Eu amo a minha vida!) e Leonardo (”Pode falar mal de mim porque vou ficar famoso”). Neste encontro foi aberta a possibilidade de troca da palavra/frase/imagem usada no encontro anterior.

Dinâmica 1
Dentro de uma bolha imaginária trabalhar a palavra/imagem pessoal convertida em gesto.

Comando 1
Posicionar o corpo em postura neutra, espalhar-se pela sala, abrir o peito como se houvesse um sol iluminando-o e uma brisa batendo nas costas, topo da cabeça para cima, pés firmes no chão e paralelos ao quadril. Focar na própria imagem. Fechar os olhos se preferir. Movimentar corpo (círculos, para cima, para baixo, para o lado etc). Manter o rosto neutro.


Isadora faz exercício com sua frase:
Pode-se captar mais energia



Luana faz exercício com sua frase:
eu amo a minha vida!




Leo faz exercício com sua frase:
Pode falar mal de mim porque vou ficar famoso


Felipe faz exercício com sua frase:
há sempre um copo de mar para um homem navegar

Comando 2
Todos ao mesmo tempo - alterar o tamanho da bolha imaginária (cresceu ou apertou) e do gesto feito: grande e pequeno. Manter os gestos precisos. Andar pelo espaço do ateliê. Acrescentar velocidade, pressão dos gestos, mesmo no braço que não sinaliza. Alternar movimento e locomoção. Relaxar. Acrescentar fluidez (gesto contínuo) e interrupção (gesto pausado). Força (pesado x leve). Relaxar.



Cada um faz sua frase, agora com novos comandos


Dinâmica 3

Atividade 2
Definição grupal de uma trajetória para ser experimentada por todos.
O movimento e trajetória foram propostos por Léo. Em linha reta andar para frente, deslocar o corpo para a direita, para trás e levantar o braço direito.

1º comando
Repetir o desenho da trajetória um a um.

2º comando
Repetir o desenho da trajetória juntos.

3º Comando
Improvisar. Manter o desenho da trajetória. Definir individualmente a direção, a velocidade e o tamanho desta. Neutralizar ainda mais o corpo.

Atividade 3
Resgatar a palavra/frase/imagem escolhida pelo grupo.

1º Comando
Incluir a palavra/frase/imagem na trajetória (antes, durante ou depois de traçá-la). Usar as qualidades trabalhadas. Improvisar com a base construída no decorrer do encontro. Zerar o corpo antes de iniciar. Manter conexão com o grupo por meio do campo da visão e seguir a indicação do grupo do que fazer.



Todos juntos fazendo um movimento proposto pelo Leo



Leo comenta como foi o 2º dia de preparação corporal



Luana comenta como foi o 2º dia de preparação corporal



Felipe comenta como foi o 2º dia de preparação corporal



Isadora comenta como foi o 2º dia de preparação corporal


Vídeos: Cibele Lucena
Texto: Regina P. P. Teixeira
Voz da intérprete: Amarilis Reto

domingo, 13 de março de 2011

Diário de Felipe e Regina: 1ª preparação corporal

Felipe: Para começar, eu cheguei um pouco atrasado em nosso primeiro encontro de preparação corporal para o projeto "4 performances de rua", uns 30 minutos de atraso, os colegas do Corposinalizante me mandaram duas vezes SMS perguntando se eu ia ao MAM, respondi que chegaria em uns 10 minutos...

Chegando no MAM já começamos a atividade de aquecimento que haviamos previsto no cronograma do projeto. Sentadas em círculo, estavam presentes: Isadora, Luana, Cibele, Joana, Amarilis, Regina e Juliana Monteiro.

Regina: O tema do encontro foi "Habitar o corpo". Inicialmente, Juliana propôs o “olhar interno para o corpo” - conscientização corporal - através de exercícios de sensibilização. Juliana chamou tal estratégia de “chegada para habitar o corpo”. O corpo dos participantes ocupou ora a posição sentada, ora a posição deitada, ora se pôs em torção, ora em pé. Foram experimentados exercícios com o foco na coluna vertebral, auto-massagem, respiração, entre outros. Alguns movimentos envolveram a coordenação corporal e respiração. Na inspiração o corpo se movia para cima (nasal) e na expiração (bucal) o movimento feito era para baixo. Juliana chamou a atenção para que os participantes mantivessem a postura ereta da coluna e o peito aberto. Esta primeira etapa foi finalizada com a seguinte questão: “Como está o corpo agora quando comparado com o corpo no momento de chegada?”, reposta esta que deveria ser dada por meio de percepção interna (sem verbalização/sinalização).



chegada para habitar o corpo

Felipe: Logo depois começamos a praticar um pouco de dança, não exatamente "dança", algo tipo uma performance, não tenho certeza de como se chama, só sei que serve para a gente acertar os nossos objetivos com o projeto das "4 performances de rua".

Regina: Num segundo momento exercitamos a comunicação do grupo por meio do movimento do corpo, sem palavras ou sinais. Locomoção do corpo no espaço vazio do ateliê. A 1ª atividade foi: dispor o corpo em formas como se elas fossem palavras (espetáculo). Juliana estipulou três sinais/comandos para serem seguidos pelos participantes para disporem seus corpos: em roda, em linha e em forma aglomerada. Regras: variar o tamanho da forma e a posição no espaço. O grupo precisa se reorganizar quando a forma original é desfeita. Juliana irá intervir quando a forma sair do padrão estipulado. A pausa foi inserida como forma contrastante ao movimento. As três formas possíveis no momento de pausa serviam para serem vistas pelo espectador (platéia). Comando: seguir um participante, mas não se deixar ser seguido. Usar todo o espaço. Deixar se acompanhar pelo grupo. Fala de Juliana: “Vamos desenhar a forma para o espectador. Bom espetáculo!”




início dos viewpoints: tempo e espaço

Felipe: Senti que foi muito duro para mim começar a atuar, todo o pessoal estava dando duro no começo, principalmente eu, enquanto a Juliana dava as ordens (regras) para o grupo criar suas formas. Fiz algumas besteiras, como puxar o corpo de alguém para arrumar certinho o desenho de nossa forma coletiva (uma linha ou um círculo, por exemplo), mas Juliana nos avisou que não devemos interferir nas ações de outros, podemos observar como as coisas vão acontecendo.


formas: circulos, linhas e aglomerados

Regina: Na 2ª atividade o participante escolheu uma pessoa (chamada de A) ao andar com a idéia de manter o escolhido em conexão com seu campo de atenção, mas não foi preciso manter uma relação visual com ela e nem tampouco a proximidade dos corpos.

Acrescentar uma outra pessoa (chamada de B). Em movimento ou em pausa o corpo do participante se manteve equidistante de A e B. Comando: manter a relação entre A e B manipulando a pausa, o movimento e a velocidade. Fala de Juliana: “Ao parar, observar onde o indivíduo está no espaço. Onde o grupo está no espaço. O que o grupo está desenhando no espaço.” Em uma 3ª atividade, visualizamos uma porta entre os corpos A e B, ou um dos corpos (A ou B) e um objeto presente no espaço. Comando: atravessar a porta. Experimentar diferentes partes do corpo ao atravessar ou recuar da porta. Parar, movimentar, alterar velocidade e observar o todo. Ao final Juliana propõe um bate-papo sobre as sensações evocadas e da atividade em si.


Alguns relatos:

Isadora: “Parece que estou vendo esta rede que se forma!”

Luana: “Me senti na cidade, irritada, confusa, onde estou? Às vezes a porta que eu visualizava sumia e eu me sentia batendo na parede.”

Felipe: “Às vezes parecia que o espaço/ateliê é que se movimentava e o meu corpo ficava parado.”

Juliana: “Para responder as questões: onde estou? Onde quero ir? Segue esta dica – parar e respirar.”


A 4ª atividade foi com objetos (almofada, garrafa, copo e lápis): a garrafa representa o corpo e é entendida como um espaço positivo. Os outros objetos representam um espaço negativo em relação ao corpo. Fala de Juliana: “Alguém quer brincar de compor o espaço com estes objetos?”


Luana brinca de compor um espaço com objetos

Felipe: Mais tarde, cada um do grupo escolheu uma palavra ou frase, que poderia inspirar uma pesquisa para as performances (Luana escolheu "raiva"; eu escolhi "há sempre um copo de mar para um homem navegar" e Isadora escolheu a idéia de que "nossos corpos são permeados por energias que nos atravessam").

Regina:
Evocar o gesto expressivo. Cuidar do espaço negativo. Mais de um integrante no palco. Evocar seu próprio gesto expressivo. Possibilidade de repetir o gesto expressivo do outro participante. Outros integrantes são os observadores.

De forma rápida Juliana fala que existem 9 tipos diferentes de viewpoints (pontos de vista), sendo que 4 se referem ao tempo e 5 ao espaço, mas acrescenta: “Pensando espaço e tempo não de maneira dissociada, pois trata-se de uma interelação/rede.”

São eles:

  1. Topografia.
  2. Velocidade/tempo.
  3. Gesto expressivo que traduza uma sensação interna ou um gesto comportamental.
  4. Repetição de algo que acontece com o sujeito ou com o outro.

Na improvisação cada integrante cria um universo próprio que reflete no universo grupal. Tem começo, meio e fim. Os quatro elementos modificam este universo. Dica da Juliana: “Cuidar do espaço negativo e respirar antes de começar.”


Felipe: Para encerrar, conversamos um pouco e compartilhamos nossas impressões, se gostamos ou não e o que aprendemos. Foi assim que chegamos ao fim... e aguardamos mais na próxima semana...

Juliana faz a "raiva" e Isadora faz a idéia de que "nossos corpos
são permeados por energias que nos atravessam"

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as 3 palavras/frases em ação

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Felipe contando como sentiu a experiência

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Isadora contando como sentiu a experiência

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Luana contando sua experiência

Texto: Felipe Lima e Regina P. P. Teixeira
Fotos: Carolina Ângelo e Joana Zatz
Vídeozinhos: Carolina Ângelo
Voz da intérprete: Amarilis Reto

quinta-feira, 10 de março de 2011

Edital Artes Cênicas na Rua 2010

4 PERFORMANCES DE RUA

Junto com a atriz Mariana Senne, o Corposinalizante ganhou o edital "Artes Cênicas na Rua" da Funarte/MinC, para realizar "4 Performances de Rua". O projeto será desenvolvido em 4 meses (de março a junho) e tem como objetivo a criação, realização e o registro em vídeo de 4 performances nas ruas da cidade de São Paulo, feitas por integrantes do Corposinalizante.

Um pouco do percurso da Mariana Senne
Há mais de dez anos trabalhando com teatro de grupo - especificamente com a Cia São Jorge de Variedades - Mariana vem se aprofundando na relação entre o teatro e a intervenção. A montagem de "O Santo Guerreiro e o Herói Desajustado", por exemplo, nasceu quando a Cia. foi para a rua com a intenção de criar um espetáculo.



Habitar o corpo e a cidade
Com o objetivo de dar visibilidade às nossas experiências, o Corposinalizante vem explorando com muita potência nossa principal identidade - o fato de nos comunicarmos através de uma língua visual-corporal, a Libras. Temos pesquisado relações entre o corpo e a cidade, intervenção e performance, tendo como principal recorte as próprias demandas da comunidade surda.

Neste novo projeto, Mariana e Corposinalizante levantam coletivamente algumas perguntas: qual o nosso papel na rua? O que queremos perguntar com nossas performances? O que é espaço público? O que é vida pública? No que queremos intervir? Como tornar visivel para toda sociedade o ritmo da comunicação em Libras? Como fazer dos nossos registros em vídeo, obras?

Mariana Senne e Cia São Jorge de Variedades

Corposinalizante

Nossa proposta é, a partir deste encontro de experiências - acumuladas na bagagem da atriz Mariana Senne e na vida cotidiana dos jovens artistas do Corposinalizante - criar, coletivamente, 4 performances de rua na cidade de São Paulo.

As performances serão pensadas como manifestos poéticos e estéticos na cidade, que tragam à tona a realidade e as histórias de vida de pessoas surdas, assim como a força simbólica da Língua Brasileira de Sinais.

O que diferentes corpos podem gerar no rítmo da cidade? Como o corpo pode interromper?

Habitar nossos corpos e, assim, comunicar. Interromper o cotidiano, o fluxo, rasgar poeticamente o banal, o estabelecido, invadir e se deixar invadir pela cidade. Entender o vasto campo da comunicação como investigação coletiva.

1ª parte do projeto - março e abril
Teremos uma preparação corporal com a Juliana Monteiro, atriz, dançarina e preparadora corporal de vários atores e companhias. Ela é especialista na técnica de "viewpoints", que oferece uma ótima base para a improvisação e para a relação dos atores com o tempo/espaço. Nesta técnica, o público é todo o tempo considerado mais um parceiro do trabalho. Durante este período preparatório, Mariana Senne nos ajudará a dar forma para as performances, detalhando o roteiro de cada uma delas.

2ª parte do projeto - maio
Com os corpos habitados, habitaremos a cidade. No segundo momento iremos para a rua realizar as performances. Teremos, neste momento, mais dois parceiros de trabalho: Diana Zatz e Pedro Fernandes, videomakers, eles nos ajudarão a pensar como nossas performances podem virar belos vídeos. Não queremos que os vídeos sejam apenas registros da experiência dos corpos na cidade, mas que sejam obras audiovisuais, que carreguem a potência estética das performances.

3ª parte do projeto - junho
Na terceira e última etapa, editaremos os vídeos das performances e prepararemos um DVD final com os vídeos deste e de projetos anteriores do Corposinalizante.

Acompanhem nossos passos! Deixem recados e participem dessa nova jornada!

Abraços,
Corposinalizante